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As gerações que amam o cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.01.09


As gerações anteriores à minha, quando falam em cinema, referem-se sempre ao cinema em sala, projecção em écran gigante, numa escuridão envolvente. Não é o meu caso. O melhor cinema, os filmes maiores, vi-os todos na televisão. Por isso não estranhem se vos disser que prefiro vê-los assim, na pequena caixinha.  (1)


Imaginem um lugar isolado no mapa, entre montanhas, uma comunidade o mais heterogénea que possam conceber. Uma micro-sociedade com uma interessante (no mínimo) mistura cultural. Um lugar cinematográfico, de uma beleza selvagem e indomável. Um lugar assim inspira-nos para sempre. Ali nunca me senti isolada e devo àquele lugar a observação precoce de como o mundo e as pessoas se organizam, e a curiosidade por outras culturas. Devo-lhe também o amor a uma energia original, selvagem e indomável. Era o mesmo cenário dos westerns, o mesmo cenário do River of no Return!


O meu pai adquiriu a caixinha porque gostava de estar a par do que se passava no mundo. A minha irmã garante-me que se lembra de ver o funeral do Kennedy em directo. A verdade é que um dos meus irmãos rapazes que dizia querer ser presidente desistiu desse sonho, por essa altura, e substituiu-o pelo de maestro. Quanto a mim, a primeira curiosidade foi o teatro, produzia-se teatro de qualidade para televisão. Foi na caixinha que vi o Perry ainda jovem contracenar com uma actriz veterana numa peça julgo que americana.


Não fui imune, na infância e adolescência, à ficção científica: os Thunderbirds (a que nós chamávamos “os bonecos de ferro” e onde o Tim Burton se deve ter também inspirado para o seu Atack from Mars) e outras séries e filmes (os anos 50 e 60 adoravam projectar-se num futuro longínquo). Nem fui imune às séries de adolescentes americanos, como Os Vigilantes da Floresta (vejam só como já eram ecológicos), à Lassie (que choradeira!), ao Black Beauty (outra choradeira), ao Feiticeiro de Oz (a preto e branco garanto-vos que é assustador)... Não esquecer o Zorro, a que chamávamos “o mascarilha”, e que se empinava no cavalo... o Bonanza... (2) E ainda outras séries francesas, mais de capa e espada: Le Chevalier de la Tempête, por exemplo... E as aventuras de piratas ou de cavaleiros corajosos, esses filmes magníficos, de cenários delirantes, maioritariamente americanos. Mais tarde seria o tempo dos melodramas, de valorizar as personagens e os diálogos.


Mas o primeiro filme que me prendeu, lembro-me como se fosse hoje, foi um filme musical. Já era noite, uma noite amena (de Primavera ou Verão). Lembro-me nitidamente de dançar, também eu, com os actores:
Tea for two... Two for tea...
mm... mm... mm...mm...
We will raise a family
A girl for you,
a boy for me...
Tea for Two,
How happy we can be...
Lá fora a noite apelava a ir dar um passeio, nem sei se estávamos à espera de visitas porque a porta da rua estava aberta, mas eu ficara presa ao pequeno écran, ali, de pé, hipnotizada. A música ficou gravada para sempre: Tea for Two...

 

Sei agora que entra a fabulosa Doris Day. Adorei de imediato a sua voz única, inconfundível. O filme, soube-o depois, é colorido mas, como todos os outros filmes que vi na televisão, saiu-me a preto e branco... A música, ah, a música... essa é bem colorida! E fica-nos para sempre registada no melhor cantinho de nós. E depois... é uma história de amor, simples e optimista. How happy we can be...


Bem, aí pelos meus dezasseis anos já tinha visto muitos clássicos americanos: o “Cinema mudo” (havia até um programa de António Lopes Ribeiro), o Chaplin, as comédias, os westerns, o film noir, o Capra, o Ford ... Muitos outros filmes descobri-os depois: igualmente na televisão (houve vários ciclos de cinema na Rtp 2, por realizador e por actores); nos ciclos do Gil Vicente em Coimbra; e na Cinemateca Portuguesa.


Hoje em dia, já é mais fácil termos acesso a todos estes filmes com as colecções em DVD que vão sendo editadas. Mas para as novas gerações e mesmo com a nova tendência para ter em casa todo um laboratório tecnológico, onde tudo começa a ser possível, o cinema em sala terá sempre o seu lugar. Recentemente fui ver um filme com uns amigos e percebi que a música altíssima, a adrenalina, as pipocas, fazem parte desse espectáculo (that's entertainment!)


Este novo século promete uma verdadeira revolução no cinema: novas linguagens, que tanto podem enveredar pelo documentário (um filão inesgotável) como pela animação (outro filão com enormes potencialidades). E o musical irá ter de novo uns aninhos animados (vejam o sucesso do Mamma Mia)! Assim como uma continuação dos heróis da banda desenhada dos anos 40 e 50, sobretudo na América (onde há um verdadeiro culto pela BD). As segundas versões também verão um novo impulso (e aqui é o meu instinto a falar). Também se verão montagens hábeis de old movies com cenas actuais. Enfim, imensas possibilidades...


Embora se verifique uma certa estagnação (nos guiões sobretudo), do cinema comercial americano, há uma criatividade enorme nas novas gerações, uma inteligência um pouco frenética mas muitíssimo interessante. E, claro!, outro filão é o que está ligado à criatividade de cada um. Penso que até já há formas de criar guiões, seleccionar personagens e realizar um filme, através de jogos de computador. Incrível, não é? Provavelmente até já haverá formas de recorrer a efeitos especiais, mas não estou muito a par das inovações tecnológicas.


 

 

(1) A televisão era a preto e branco e só havia um canal. Invariavelmente algum dos circuitos lá falhava e colocavam a mira com música. Também nos pediam desculpa pela interrupção da emissão, que o programa seguiria dentro de momentos...

(2) E aqui, de um outro lugar, o Bonanza.

 

 


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publicado às 16:49


12 comentários

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De João Soares a 11.01.2009 às 23:25

Um bom blogue sobre cinema, cinema e sociedade e educação para o cinema.
Abraço
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 15.01.2009 às 12:59

Obrigada, João.
Já são muitos anos de filmes!
Desejando-lhe bons filmes,
Um abraço. Ana
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De fruta a 13.01.2009 às 17:57

DEVE SER CÁ UM ESPECTACULO VER A GUERRA DAS ESTRELAS, A CLEOPATRA OU O TORA TORA
E O PATON EM TV DEVES SER TARADO?
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 15.01.2009 às 13:04

Olá! A guerra das Estrelas só mesmo em sala de cinema, é verdade!
Cresci a ver bom cinema em televisão, é só isso!
Ana
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De Jovem para Sempre a 13.01.2009 às 20:48

:)
http://parabememagrecer.blogspot.com/
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 15.01.2009 às 13:07

Boa ideia!
No meu caso, é mais a "juventude do olhar"...
Ana
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De Flor de Jasmim a 13.01.2009 às 22:53

Concurso Flor de Jasmim

PARTICIPE!:)
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 15.01.2009 às 13:29

Obrigada, Flor de Jasmim, pelo amável convite!
A ver se me inspiro para participar!
Ana
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De Jim de la Rocque a 15.01.2009 às 13:16

Os melhores filmes que viste foram na tv... acho que tens de ir mais ao cinema. Até no Tibete Heinrich Harrer contruiu um pseudo-cinema para os habitantes desfrutarem do prazer de ver um filme no GRANDE ecrã. Posso ter visto alguns dos melhores filmes na tv (ou no computador) mas as melhores experiências ao ver um filme foram sem duvida no cinema. (e tou a falar de experiência exclusivamente relacionadas com o filme. =) )

Ainda há muito e bom cinema por ai. Ás vezes menos mainstream. Abraço
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 15.01.2009 às 13:34

Pois, Jim, mas na minha infância e adolescência foi na televisão que vi os melhores filmes!
Havia um Clube, mas não era dirigido pelo Heinrich Harrer que esteve no Tibete, get it? A não ser que gostasse da Marisol e do Joselito...
Ainda hoje, se o filme que quero ver sair em DVD, prefiro vê-lo nesse suporte. "Entro melhor no filme". E quando digo "entro no filme", é mesmo isso que acontece...
Bons filmes, Jim!!!
Ana
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De André Valente a 15.01.2009 às 17:23

Gostei do Blog e deste post sobre cinema. Deve ser giro ver filmes numa "caixinha". Gostava de experimentar, embora no cinema a sensação seja diferente.

André
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 16.01.2009 às 17:40

Olá, André! Obrigada.
Já vi que escandalizei toda a gente!
Vi muitos e bons filmes em salas de cinema, mas cresci a ver os melhores realizadores na televisão a preto e branco.
Lá terei de me redimir num novo post a explicar isto melhor...
Bons filmes!
Ana

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